quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uns apertos no peito

Acabou. Terminou com tudo. Sentiu que não tinha mais estômago. No lugar tinha agora um buraco negro que tentava sugar o seu coração. Ficaria feliz se isso acontecesse, ao menos deixaria de sentir a dor que sentia no peito e que cada vez mais ficava do tamanho do mundo. Chegou em casa e não disse nada. Mais uma vez a voz dizia:
- Bom trabalho.
Não era voz que saia de bocas. Não era apenas uma voz. Muitas vozes diziam isso. As vozes saiam de corpos e olhos compreensivos. Essas vozes saiam de historias já contadas. De todo jeito elas tentavam penetrar o corpo magro de Marília, já tão cansada de não se caber. Sentada ela estranhava todo canto da casa, se perguntando em pensamento:
- Porque que quando a gente entra na vida a gente se confunde tanto?
Se lembrando dos motivos pelo qual ela tinha feito, agora, uma parte do resto de sua vida infeliz, recordou do que um jovem poeta escreveu: “ A gente não é serio com dezessete anos...”. Mas Marília só pensava que tudo aquilo era a coisa mais seria do mundo.
Mas uma vez pôs a felicidade, a vida, na mão de outros, outros que não entendiam e nem ligavam muito para os sentimentos dela.
E fechou a porta do quarto e a porta do coração. Se sentiu idiota de pensar tanto clichê. Mas o que ela podia pensar agora se todos os clichês se aplicavam a ela?
A mãe chamou pra comer. Marília foi . Comeu um biscoito ou um pão com manteiga. Não sentiu o gosto. A mãe perguntou se tinha alguma coisa errada, Marília sorriu e respondeu negativamente.
Deitou a cabeça no travesseiro, olhou no relógio, ainda eram 08:47, queria muito dormir mas com certeza não iria conseguir. Até os seus dezenove anos só havia feito coisas desimportantes e conscientemente o desejo dos outros. Marília entrou numa grande disposição de mudar, fingir estava perto de se tornar insuportável, havia de começar aos poucos mas também tinha pressa.